Lettícia Aimée: VÍDEO E TEXTO: BORDERLINE

26.5.17

VÍDEO E TEXTO: BORDERLINE


Oie! Meu nome é Lettícia e eu fui diagnosticada borderline. Eu estou fazendo esse vídeo porque maio é o mês da consciência do transtorno de personalidade borderline e existe muito pouco conteúdo sobre esse transtorno, principalmente em português (aos poucos eu estou traduzindo os meus textos preferidos).

Um transtorno de personalidade é um padrão de sentimentos e comportamentos, e no caso do transtorno de personalidade borderline existem mais de 256 sintomas, e pessoas sem borderline podem apresentar alguns desses sintomas, mas pessoas que tem o transtorno vão apresentar vários de forma padronizada.

Os principais sintomas são: mudanças de humor intensas e rápidas, impulsividade, auto destrutividade (podendo incluir tanto comportamentos impulsivos, como gastar demais, quanto abusar de alcool e outras droguinhas), auto punição, reações extremas, pensamentos preto e branco. Pensamentos preto e branco são quando você tem pensamentos extremos, ou seja, você só enxerga as coisas em extremos. Por exemplo, a pessoa fez uma coisa ruim, ela é uma pessoa é horrível, que é a desvalorização; se ela fez algo bom, ela é uma pessoa incrível e sem falhas, que é a idealização.

Outros dos principais sintomas são instabilidade da auto imagem, muito medo de abandono, incluindo reações exageradas quando se sente esse medo; sentimento constante de um vazio muito intenso, medo de rejeição, podendo também apresentar sintomas de ansiedade e depressão, paranoia, instabilidade em metas a longo prazo, problemas com raiva ou o controle dela e sintomas de dissociação. 

Dissociação, o que é? Tem dois tipos: a despersonalização, que é quando você se recorta de si mesmo e sente que não é real, que seus pensamentos não são reais, que o que você fala não é real... E tem também a desrealização, que é o mesmo sentimento, só que sobre o mundo. Você sente que o que você tá vendo não é real, que as coisas que você tá presenciando não são reais. Nisso, entra um pouquinho de alucinação, principalmente auditiva; por exemplo, ouvir uma frase totalmente diferente da que foi dita, geralmente tornando ela muito mais negativa, porque você está predisposto a essa negatividade quando está estressado.

E as principais causas de Borderline são tanto por genética quanto por vir de um um lar instável e abusivo.

Muitas pessoas que tem borderline também tem depressão e ansiedade, porque vai tudo meio que no combo, e como os sintomas são mais claros, geralmente é o que é diagnosticado primeiro, e a maioria das pessoas com borderline demoram para chegar no diagnostico certo ou são diagnosticadas erroneamente, porque algumas pessoas com o transtorno não demonstram os sintomas logo de cara. Teve uma vez que eu fui numa psicóloga que descartou o borderline de cara logo na primeira sessão porque disse que eu parecia "muito sã", o que é um preconceito total.

Alguns border só começam a apresentar sintomas nas suas relações mais profundas, com o melhor amigo, com o namorado, com a família. Às vezes tem border que não expressa sintomas nem com a família, mesmo que o transtorno tenha sido causado pela própria família. E com psicólogos e psiquiatras demora para criar uma relação de confiança e por isso muitos podem não apresentar sintomas superficialmente, mas isso não significa que eles não tem o transtorno. E por isso também o diagnostico é tão difícil: se você acredita ser borderline, procura mais sobre os sintomas.

Eu sou a favor do auto diagnostico ser apenas uma das partes do processo de diagnóstico, e não a reta final, porque ninguém se conhece melhor do que você, mas profissionais como psicologos e psiquiatras podem ajudar muito no processo do diagnostico. Se o profissional não der ouvido ao que você pensa e sente, e diminuir o que você fala, ele tá sendo um profissional ruim. Essa foi uma das dicas que a minha psicóloga atual me deu: que se eu acredito que tenho alguma coisa, eu posso e devo falar sobre isso. Eu tenho direito de me sentir confortável num espaço seguro para falar sobre as coisas que eu penso e que eu sinto, e você também. Mesmo que não seja borderline, tem outros transtornos que apresentam sintomas similares , e falar sobre pode ajudar a chegar num diagnóstico, e pode ser uma parte muito importante do processo de se cuidar, pois faz sentir que seus sintomas são válidos, ajuda no auto conhecimento, no que faz bem, em como lidar com alguns dos sintomas, e como melhorar em vários aspectos. 

Eu mesma, antes de ser diagnosticada borderline, e antes de descobrir o que era borderline, não entendia alguns dos meus sintomas, não entendia por que eu agia de tal forma, não entendia os meus momentos de descontrole, não entendia. E o diagnóstico foi muito importante pra mim, porque me fez sentir que tudo aquilo era real, que aquelas coisas realmente tavam acontecendo por um motivo. Eu vou falar um pouquinho agora sobre o estigma e estereótipo de ser borderline, que é como nos representam em filmes e séries, e como a maior parte tá muito errada. Muitos textos de como lidar com borderline, representam o border como uma pessoa ruim, que quer te fazer mal, que é manipuladora porque quer te fazer mal, e isso não é verdade.

Todas as pessoas border que eu conheci são muito queridas, sensíveis, empáticas, são ótimas pra conversar sobre sentimentos e problemas, e são muito atenciosas e carinhosas. A manipulação é um dos sintomas, mas não é algo que é feito com o propósito de ser ruim, e sim por causa do medo de rejeição ou abandono.

Também por causa do estigma, com o tempo eu aprendi a abraçar meu transtorno, não de uma maneira romantica, não porque acho bonito ou legal ter borderline, mas pra melhorar minha auto aceitação. Isso fez com que eu entendesse que eu posso falar sobre as coisas que eu sinto e penso. Que tudo que eu sinto é válido, e que eu tenho motivos pra me sentir da forma como eu tô me sentindo, e que eu tenho o direito de me sentir dessa forma, também.

Falar abertamente sobre o transtorno (para as pessoas certas) me ajuda a melhorar a auto aceitação.

Agora eu vou falar um pouquinho sobre como eu lido com os dois principais sintomas que me afetam. O primeiro é sobre dissociação, e o segundo são acessos de raiva. 

Eu sempre tive muita dissociação, e com o tempo eu fui aprendendo a lidar melhor; o que me ajuda é tentar ficar em um ambiente que eu me sinta segura, tentar falar meu nome pra mim mesma. Eu sei que pode soar bobo pra quem nunca dissociou, mas pra quem tá dissociando, isso é importante, porque quando a gente tá se sentindo desconectado de si mesmo, a gente sente que não é real, então chamar o próprio nome ajuda. Outra coisa que me ajuda e dar belisquinhos na palma da mão, mas de forma leve, porque quando a gente tá assim, a gente perde um pouco a noção da força. E também beber água gelada, porque dá pra sentir o percurso que a água faz desde a sua boca até o seu estômago, e isso acalma, porque você começa a sentir que suas vias respiratórias também estão ali, e você consegue respirar melhor, e apreciar a própria respiração. Outra coisa que me ajuda é ter uma lista de coisas fixas que eu sei sobre mim e sobre o mundo ao meu redor. Por exemplo: eu tenho um namorado que me ama, eu me chamo Lettícia, eu gosto de Fullmetal Alchemist. Essas coisas fixas ajudam com a auto-identidade, te ajudam a se conectar com você mesma. Essa lista eu faço quando eu tô bem; quando eu tô mal eu não tenho certeza de nenhuma dessas coisas, e por isso mesmo preciso dela.

O outro sintoma que mais me afeta são os acessos de raiva, e pra falar sobre isso eu gostaria primeiro de explicar três termos:

O primeiro é "splitting", que em português é clivagem, aquele pensamento dicotômico, preto-no-branco. O segundo termo é "favorite person" ou FP, que na comunidade borderline, significa a pessoa (ou pessoas, porque pode ter mais de uma) que você mais é apegada, seja de forma positiva ou negativa, e é de quem você mais quer validação, e consequentemente acaba sendo a pessoa-alvo principal dos seus pensamentos dicotômicos. E, finalmente, o terceiro termo é "gatilho", ou "trigger", que infelizmente acabou se tornando um termo banalizado. Gatilho é tudo aquilo que te causa sensações muito ruins. Podem ser palavras, ações ou tópicos que te lembram de coisas ruins do passado, ou coisas das quais você tem muito medo.

Tendo explicado isso, a melhor forma que eu encontrei de lidar com os acessos de raiva, até agora, é tentar perceber quais coisas são gatilho pra mim e evitar que elas façam parte da minha vida; depois, algo que me ajuda bastante é aprender a perceber quando esse acesso de raiva está vindo. Essa percepção me ajuda a tentar me afastar daquilo que está me fazendo mal e não descontar isso em outras pessoas, por mais difícil que seja. Quando eu sinto que estou tendo um acesso de raiva, eu mando mensagem pra minha melhor amiga ou meu namorado, e como eles me conhecem bem, eles já sabem como agir, que é me respondendo rápido, pra eu não ficar nervosa e achando que eles não me amam, mas não dando espaço pras minhas provocações e tentativas de brigar. Como eles são minhas pessoas favoritas, nos termos que eu descrevi, eles tendem a ser os alvos dos meus pensamentos ruins, que envolvem pensar que não me amam, que só falam comigo por pena, que eles me odeiam, e pensar coisas ruins deles como forma de inconscientemente justificar a raiva que estou sentindo.

Por isso, quando eu tô tendo um acesso de raiva, seja por conta deles ou por outros motivos, mas tendendo a descontar neles, eu aviso que estou tendo isso, e procuro não dar margem pra isso crescer, por mais difícil que seja controlar. Ah, detalhe: se eu tiver pensando em me machucar, eu sempre prefiro falar pra eles, pra que eles me ajudem a controlar isso, mesmo que a vontade seja fazer e não avisar ninguém até já ter feito. Eu também gosto de desabafar, mas eu tento não fazer isso em público, ou quando faço, já deixo claro na minha cabeça que às vezes podem surgir pessoas ruins que podem usar meus pontos fracos pra me machucar (inclusive, quando eu estou nesse estado, eu quero que me machuquem como forma de auto-punição, por isso é ideal que eu não dê espaço pra isso e procure fazer isso num lugar seguro).

Ah!!! Outra coisa que me ajuda bastante na vida é ter começado a meditar e, a princípio, eu não achava que eu ia conseguir meditar, porque acreditava que era "deixar a cabeça limpa", mas aprendi que meditar significa deixar que os pensamentos corram pela sua cabeça, mas deixar que eles venham e vão embora, sem me apegar a eles. Também ajudou muito no meu auto-controle e no meu auto-conhecimento. Tem um aplicativo que eu uso que se chama Headspace, que oferece meditações guiadas, e é muito bom pra quem tá começando. Vou deixar o link aqui na descrição.

E é isso!

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